A Crónica de Mia CoutoUm outro Pai NatalÁfrica 2110/09/2008
"Muitos compatriotas meus acreditam genuinamente que, neste extenso e bravio mundo, todos os brancos são ricos e estão dispensados do trabalho árduo",escreve Mia Couto.
O homem usa vestes tradicionais de tons azuis e vermelhos e fala numa língua que não sou capaz de identificar. Peço que me traduzam, ninguém o sabefazer. Estamos na cerimónia de abertura da Conferência Internacional de Escritores e Tradutores, realizada no mês passado em Estocolmo. Mais de mil participantes, vindos de todo o Mundo, têm os olhos postos no homem de trajes garridos que domina o espaçoso palco.
Depois de uma breve anunciação, o homem pede a dois músicos que o acompanhem numa canção melancólica. O tom arrastado, para meus ignorantes ouvidos, faz lembrar as ladainhas monocórdicas dos índios americanos.
A meu lado, surge um primeiro esclarecimento quando alguém me sussurra:
- São lapões, estão a falar sami.
O homem no palco é um escritor e cantor lapão que, num discurso breve mas incisivo, lamenta o facto da sua língua apenas há meia dúzia de anos ser reconhecida na Suécia. Demorou séculos. Todos conhecem os lapões sem realmente saberem quase nada sobre eles. A figura do Pai Natal passeando por territórios de neve numa carroça puxada por renas é uma caricatura que oslapões, sem querer, exportaram para o mundo inteiro, mas foi-lhe surripiada a patente da imagem.
Jacob Zuma confessou-se «surpreendido e chocado» por, esta semana, ter visitado uma região habitada por comunidades de brancos pobres em Joanesburgo. O dirigente do ANC desconhecia que entre os brancos sul-africanos pudesse existir tanta miséria.
Muitos compatriotas meus acreditam genuinamente que, neste extenso e bravio mundo, todos os brancos são ricos e estão dispensados do trabalho árduo. Adivisão de riqueza coincide com fronteiras raciais por estranho mandato divino ou por condenação biológica.
Não me esqueço de um documentário cinematográfico dado a ver, logo após a independência, a uma audiência de operários em Maputo. De repente, sem que eu entendesse a razão, a sala inteira ria-se a bandeiras despregadas. O filme mostrava camponeses do Norte de Portugal entoando canções enquanto lavravam a terra. Não havia motivo aparente para aquele estado hilariante.Depois, me explicaram: nunca aqueles operários tinham visto brancos trabalhando na agricultura. E pensavam que aquela gente os estava imitando a eles que, apesar de urbanos, ainda se mantinham ligados aos trabalhos agrícolas.
Pois eu, nessa cerimónia em Estocolmo recebi mais surpresas que Jacob Zuma emais ainda que os espectadores de Maputo. Na verdade, eu conhecia os lapõese sabia um pouco da sua história. Mas fascinava-me a ideia que aquela língua teve, no contexto da Europa desenvolvida, que empreender a mesma luta anti-hegemónica que as línguas africanas. Decidi, pois, falar com o escritor. E aí, na realidade, me esperava a verdadeira surpresa. Ao me saber africano de origem portuguesa, o lapão me estendeu a mão e me disse:
- Somos parentes, meu irmão.
Acreditei, primeiro, que me atribuía, gentilmente, o parentesco da amizadeque é, afinal, mais fundo que os laços de sangue. Mas, não. O homem me considerava próximo do ponto de vista genético. Os lapões, explicou ele, possuem 96 por cento do seu ADN originário da Península Ibérica e do Norte de África.
Regressei ao hotel pensando numa conversa que acabara de manter com os meus colegas africanos. Para nós, o assunto das línguas era simples: os europeus impuseram as suas aos outros. Mas estávamos longe de pensar que esses«outros» pudessem ser também europeus. E a ironia talvez pudesse ser ainda mais ousada: os verdadeiros originários da Europa Ocidental estavam brigando, ao lado dos africanos, pela dignificação das suas culturas e línguas.
De regresso a Moçambique me lembrei de como sempre estranhei a figura deslocada do Pai Natal, esse velho branco de barbas brancas tremendo de frio em pleno Dezembro que é o mês mais quente da minha cidadezinha tropical. Me irritavam as renas pelo facto de pouco se parecerem com os inhacosos e impalas da minha terra. Mas, agora, quem sabe eu sacuda, com a mesma simpatia, a mão do solitário e lapão das barbas quando ele se anunciar, no meu quintal, em plena época natalícia?
...NÃO FALOU EM BAMBIS A QUEM DEDICAM ODES......PQ OS BAMBIS MERECEM....
1 comentários:
SIIIIIIIIImmmmmm (bocejo).........
muiiiiiiiiiito interessant...zzzz...zzz
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