sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Diz-me onde moras. (Miguel Esteves Cardoso)



"Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada.

Por exemplo. Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios,
comprou um andar em Carnaxide.
Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um
problema. Era em Carnaxide.
Nunca mais ninguém o viu.
Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia!

Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e
Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide.
Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que
umas águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço.

Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por
curiosidade, onde é que vivemos.
O tamanho e a arquitectura da casa não interessam.
Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada,
Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja.
ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola.

Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau.
(...)

Ao ler os nomes de alguns sítios - Penedo, Magoito, Porrais, Venda das
Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para
entrar na Europa.

De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o
Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?

Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é
nada comparado com certos nomes portugueses.
Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um
jantar.

Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a
menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).
E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora,
presentemente?", só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da
Chouriça (Estremoz).

É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo
depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão
Fundeiro?
Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de
uma versão transmontana do Garganta Funda.

Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em
Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso?

Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma
Vergadelas?

É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra".

Ninguém é do Porto ou de Lisboa.

Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa
terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer
mentir.

Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de
naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro).

É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos
estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and Go Away...").

Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como
sendo originário de Filha Boa.

Verá que não é bem atendido. (...) Não há limites. Há até um lugar chamado
Ca... b rão, no concelho de Ponte de Lima !!!

Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros.
Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os
nomes dos restaurantes giraços, tipo : Não Sei, A Mousse é Caseira, Vai Mais
um Rissol. (...)

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso
que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo
Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a
comprar rebuçados em Bombom do "Bogadouro"¹, (Amarante), depois de ter
parado para fazer um chichi em Alçaperna (Lousã).

¹ - Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado!!! "

(Miguel Esteves Cardoso)

4 comentários:

Belita disse...

Das melhores que já li! Vês! quando queres, tu sabes!!!

Carlota disse...

O meu primo é tãooooo culto!!! Até parece de RANHOLAS!!

Belita disse...

Eu cá, se pudesse escolher, morava em COINAS! adoro este nome! assim era dois em um! sempre q me apetecesse mandar alguém pra LÁ, podia disfarçar com a minha direcção.
Tipo: OLHA! porquê q não vais prá COINA.........., pois....tá-se bem por lá, em Coinas, onde eu vivo...

José Almeida disse...

....é mais Charneca da Caparica...é mt mais fino...é como Cascais...começam todas com C de fino....e não de Coina...mt fino......